sexta-feira, 4 de junho de 2010

De quando se perde uma amiga.

Aos dezesseis eu perdi uma grande amiga. . Hoje, faz exatamente dez anos do acontecido. Para mim foi uma tragédia. Um sofrimento intenso. Ela se chamava Luana e não lembro bem quando ou onde a nossa amizade começou. Éramos amigas, e isso basta.
Escrevi esse texto hoje, com o coração partido. Seria uma carta, se o céu tivesse CEP.


O calendário marcava quatro de junho do ano dois mil. Ainda lembro-me da nossa última conversa: eu falava do quanto eu queria ir à Universidade e você de como seríamos depois da Universidade. Planos interceptados por aquela curva.
Eu fui para casa e você, minha amiga, deixou um espaço em branco, um aperto no peito, uma frase reticente, uma página escrita só até a metade. Um abraço suspenso no ar, uma piada que não deu tempo de contar, a viagem que não deu tempo de fazer, a festa que não deu tempo de ir...
Hoje o calendário marca quatro de junho de dois mil e dez.
Em dez anos eu fui à Universidade, apaixonei-me pela Matemática, decidi ser professora e agora sou quase Mestre. Fui apresentada a Caio Fernando Abreu e a Jorge Luis Borges, continuei a ler a poesia de Clarice Lispector e virei fã de Chico Buarque. Vi de perto Ariano Suassuna, Lenine, Renato Braz e Dominguinhos; o Brasil ser pentacampeão mundial de futebol e o Lula chegar Lá. Ouvi Vinícius de Morais, mudei o cabelo, perdi amigos, mas ganhei outros. Abandonei os óculos de grau, viajei de avião, perdi a rotina e passei a dar o maior valor ao cinema nacional. E senti muitas saudades suas.
Em dez anos eu senti saudades de ir à sua casa comer umbu verde com sal e ler a Capricho a quatro, seis, oito mãos e de fazer todos os testes. De ouvir você me acordando às 9 da manhã para relembrar a festa da noite passada, de decorar a agenda. De conversar sobre “aquela pessoa” nos Batentes, na frente da casa de Luiz do Clube, na Pracinha, no intervalo da aula, aos domingos à tarde. De te chamar de pricunhada, de fazer dupla com você nos treinos do volley, de criar gírias que só a nossa turma entendia e usá-las nos mais diferentes sentidos. De combinar a roupa que usaríamos à noite e de você passar aqui em casa antes de sairmos, por mais que isso fosse a maior contramão do mundo. De ter você perto de mim, de te chamar de amiga. De ouvir o seu sorriso constante, de ver os olhos apertados quando a gargalhada saía.
Você era engraçada, romântica, carismática, amável. Era uma disputada dançarina nos forrós. Era uma boa companhia para qualquer lugar, para estudar, para uma farra na casa alheia. Era organizada, criativa. Não havia problema que a abalasse, não havia coisa que não tentasse. Fazia tudo o que podia. Era exemplo de filha, de neta, de sobrinha, de prima, de amiga. Era incrivelmente compreensiva. Era de bem. Era de paz. Era uma melhor amiga, uma verdadeira irmã para tanta gente, que eu não sei como conseguia agradar a tantos. Era tão querida por tantos que eu só posso acreditar que não podia mesmo ser desse mundo. Queria tanto bem a tantos, que parecia conhecer o mundo todo. Era uma amiga de marca maior. E nós ainda tínhamos muitos sorrisos pra sorrir juntas.
Dez anos depois são inúmeras as fotos reveladas a encher os álbuns. As lembranças são infinitas. As lágrimas ainda insistem em cair. A saudade é imensa, por uma amizade ainda maior. E eu me limito a ficar imaginando como seria se você estivesse aqui.

Suzany Cecília da Silva Medeiros.
Junho, 2010.